Archive for agosto \22\UTC 2012

Festival e Mundial de Tango Buenos Aires 2012

Tango Buenos Aires

Festival e Mundial de Tango 2012

O calendário de eventos da cidade de Buenos Aires funciona há muitos anos como um reloginho. Em janeiro e fevereiro temos o festival de verão, em abril o Bafici (que eu amo!), em novembro o festival de Jazz e por aí vai. Isso é muito bom porque sempre tem atividade cultural rolando por aqui e é mais fácil se programar (inclusive para turistas) para não perder as atrações que a gente mais gosta.

Agosto é o mês mais tangueiro do ano. O Tango Buenos Aires Festival e Mundial é o maior encontro anual deste gênero tão portenho e a edição 2012 começou no dia 14 e vai até o dia 28, são 15 dias a puro tango e com todas as atividades gratuitas. O evento tem repercussão internacional e convoca público de todo mundo.

A abertura do festival este ano aconteceu na Usina del Arte, no bairro da Boca, uma sala de espetáculos que foi inaugurada alguns meses atrás (e que terá um post inteirinho dedicada a ela em breve). O evento era somente para convidados e alguns sortudos que ganharam entradas em um concurso do Facebook (eu ganhei!! :D) e a atração principal foi um recital da Orquesta Típica Sub 25 e a participação especial dos bailarinos Juan Carlos Copes e sua filha, Johana Copes, que são dois dos maiores nomes do baile de tango da Argentina.

Usina da Arte no bairro da Boca

Usina del Arte, no bairro da Boca

Além da Usina del Arte, as outras sedes do festival são o Centro de Exposiciones Recoleta, o Anfiteatro do Parque Centenario, os teatros Colón e Regio (bem pertinho da minha casa, maravilha!) e o estádio Luna Park, onde será o encerramento.

Principais atrações e atividades

mudial de tango buenos aires 2012

Eliminatórias Tango Escenario

A programação completa do festival pode ser acessada aqui. Como são centenas de atividades diferentes seria impossível falar de todas, então deixo a listinha com os destaques e os meus favoritos desta edição 😉

Mostra Permanente Piazzolla Íntimo e Universal: Este ano o Festival faz um tributo a Astor Piazzolla, aos vinte anos de sua morte. Além de vários recitais que fazem homenagem ao compositor e sua obra, também organizaram esta mostra permanente com manuscritos, desenhos e mais de 250 fotografias, muitas delas inéditas, que revelam aspectos tanto de sua vida íntima quanto de sua vida pública.

Concertos e recitais: foram agrupados em ciclos temáticos, abarcando todos os estilos e misturando desde as formas mais tradicionais do tango quanto a nova geração de tangueiros apelidados de Sub 25, artistas e compositores de vinte e poucos anos que fazem mais que reinterpretar os clássicos, estão produzindo música nova, garantindo assim a continuidade e a vigência do tango.

Novos nomes do tango

Orquesta Sub 25 – um gênero que se renova

Os shows mais interessantes ficam por conta do ciclo Piazzolla (para mim é o grande referente de todos os tempos); o tango eletrônico do Tanghetto, que comemorou dez anos de existência; a cantora Adriana Varela cantando os clássicos do tango e a Orquesta El Porvenir, que é formada por crianças de bairros carentes da cidade.

Além disso, as propostas que mais me chamaram atenção foram os recitais que misturam tango com jazz; uma apresentação da cantora Karina Beorlegui que faz uma ponte entre tangos e fados e a Orquesta Fleurs Noires, formada só por mulheres, algo que é muito raro em um ambiente que é predominantemente masculino como o tango (ahamm, seria muito indelicado dizer ‘ambiente predominantemente machista como o tango’? :D).

Teatro Colon Buenos Aires

Espetáculo Tangocontempo no Teatro Colon

Milongas, classes e práticas de tango: Além dos concertos e recitais, o festival também oferece muitas aulas práticas (desde o nível básico até o mais avançado) para que o público coloque a mão, ou melhor, o pé na massa. E também os espetáculos de baile, que fazem cair o queixo, além das milongas onde todos vão para dançar.

Tem um monte de atrações imperdíveis nesta categoria, com destaque para o espetáculo de dança Tango y fútbol, que une elementos da dança, do esporte e fragmentos do livro El fútbol a sol y sombra, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Entre as milongas, se destacam as de tango eletrônico e a Milonga de encerramento. E entre as diversas aulas oferecidas pelos bailarinos e milongas mais famosos de Buenos Aires se destaca a aula de Johana Copes exclusiva para mulheres.

Festival de Tango Buenos Aires

Onde é o fim da fila?

Mundial de Baile: a Copa do Mundo dos bailarinos de tango é, sem dúvida, a atração de maior sucesso do Festival. Em vários lugares do mundo os casais participam de campeonatos e os vencedores vêm para Buenos Aires para competir entre si e com os donos da casa. As categorias são o tango escenario (o tango para os palcos, cheio de acrobacias e piruetas) e o tango salón (o baile apropriado para as pistas de dança). Os campeões são escolhidos por um júri especialista.

As entradas para as finais de cada categoria são distribuídas antecipadamente e são disputadas quase a tapa. Este ano fizeram a entrega na 2a-feira passada, que era feriado aqui e em três horas já estava tudo esgotado, dá uma olhadinha na fila que se formou, uma loucura 😀

Mundial de Tango Buenos Aires

Classificatórias do Mundial de Tango

*As fotos utilizadas foram retiradas da página oficial dos Festivais de Buenos Aires no Facebook.

Bueno, já deu pra ter uma noção de tudo o que esse festival movimenta. É mais ou menos similiar ao que acontece com o Carnaval brasileiro (em uma escala muito menor, obviamente), com vários meses de preparação antes da grande festa. Sorte nossa que como público, a única coisa que temos que fazer é participar e curtir! Deixo pra vocês esse vídeo com uma das melhores músicas de Piazzolla, Libertango. Que tal dar uma espiadinha?

 

Fernanda Galli, direto de Buenos Aires, Argentina.

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Ensino Superior em Moçambique, minha experiência no papel de “Dra. Sâmela Silva”

Me pego lembrando de Moçambique como quem lembra de um sonho bom. Agora tudo virou aprendizado e sinto uma saudade tranquila, daquelas que só as coisas boas vem em mente. Das experiências mais gratificantes que tive, lecionar foi talvez a principal. Sim, humildemente e com todo o respeito aos mestres, pude experimentar ser professora, aliás, “Doutora”, como eles se referem aos professores universitários. 😉

Diferente do Brasil, onde há universidades como há padarias, em Moçambique senti que o ensino superior nacional ainda é pouco explorado e valorizado. Conheci muitos moçambicanos que foram estudar no exterior, e os destinos mais comuns eram: Portugal, Brasil e África do Sul. Falta de incentivo, investimento, estrutura, entre outros, são itens que prejudicam a continuidade dos estudos por lá.

Formada em Comunicação Social – Jornalismo, me abri para uma nova experiência quando um convite inesperado surgiu: dar aulas para a turma do último semestre de Ciências da Comunicação do ISCTEM, o Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. A princípio me assustei, afinal sou apenas graduada mas entendi que lugares como Moçambique precisam de gente com vontade, não só com diversos diplomas, e encarei o desafio.

A cadeira (é assim que eles chamam “matéria” lá) era Estratégia Avançada em Branding, puro Marketing, mas meus 2 primeiros anos de comunicação me deram a base que os alunos precisavam. Tive que ler livros, pesquisar muito, ver referências e vídeos para levar à sala de aula mais que um simples discurso. Meus alunos moçambicanos fizeram meu cérebro desenferrujar! 😀

Ah… os alunos! Olha, foi um pequeno desafio convencê-los de que liberdade era diferente de zona. Chegavam na hora que queriam, faziam as tarefas que queriam, até que a pequena aqui chegou dizendo: “A gente vai se divertir e aprender muito, mas do meu jeito”. Rsrsr… Comecei a ensinar muito mais do que estratégia de marcas, entendi que ali meu papel era prepara-los para a vida: comportamento, jeito de falar, escrever, pontualidade, etc. Eles precisavam de atenção em uns passos antes.

Alunos moçambicanos nas dependências da faculdade.

Concluí que isso é fruto de aulas babacas, professores que entram, abrem um livro, começam a ditar e ponto. Resolvi fazer diferente. Graças a Deus, na faculdade na qual dei aulas, havia uma certa infraestrutura, tinha um projetor na sala, por exemplo. Eu inseria vídeos, músicas, aulas em Power Point com ilustrações, lembretes, dicas. Levei revistas e jornais, nacionais e estrangeiros, para análise e por aí foi. Até na disposição das cadeiras eu mexi quando fizemos um debate, coisas simples, banais para quem teve a oportunidade de conhecer professores bacanas, mas pra eles eu senti que fez diferença.

A dificuldade de aprendizado era nítida, a maioria morava muito longe, eles eram de origem simples, trabalhavam e estavam ali cansados. Considere o agravante de que não há transporte público decente, que os salários são baixíssimos e que o ensino fundamental e médio são precários, mas isso renderá outro post. Entre uma dificuldade e outra, aos poucos fomos nos alinhando. Fui sentindo os alunos mais interessados, presentes e com vontade de interagir. Fiz questão de mandar todas as aulas por e-mail e assim criamos outro espaço de estudo, fora das dependências da faculdade. Muitos não tinham computador e internet em casa, mas havia um laboratório de informática à disposição dos alunos e os cafés (como eles chamam as lan houses) não são tão caros por lá.

ISCTEM – Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique, local onde dei aulas.

Eu dei sorte. Toda essa infraestrutura não é regra, minha amiga Renata Moraes que o diga! Essa jornalista baiana também passou uns tempos em Maputo e lecionou na Faculdade de Jornalismo de lá… era lousa de giz e carteiras em péssimo estado. Mas, como eu disse, gente como ela fazia a diferença porque tinha vontade. Ela levava os alunos para atividades fora, incentivava debates e aplicava provas de verdade, serviu de inspiração pra mim! 😉

Apesar das dificuldades, eles estavam lá, não é fácil se formar com um quadro tão desfavorável, então, deixo aqui resgistrado meus parabéns como professora coruja! 🙂 O mais gratificante foi aplicar o exame de fim de semestre que eu mesma elaborei. Eles absorveram muito do que passei e mostraram isso no papel! Um deslize ali, outro aqui, mas ok, faz parte! Até hoje tenho contato com eles, de vez em quando mando um e-mail perguntando como estão, se já se inseriram no mercado de trabalho e tal, as respostas vem sempre cheias de carinho tipo essa que recebi depois de divulgar as notas dos testes:

“Boa noite !

Hummm que bom saber que há só boas notas na turma!

Em nome da turma agradeço pelas aulas foram optimas, muito produtivas e superaram as nossas expectactivas! 

É uma pena que tenhamos terminada já as aulas,

Gostamos muito de ter ficado esse tempo ao nosso lado!

Passe bem e continue sendo essa pessoa e professora atenciosa; carinhosa; e acima de tudo com conhecimento e vontade de transmití-lo ! 

Bjx”

Da aluna Aissa Madaugy.

Kanimambo, Queridos alunos! Vocês nem sabem, mas quem aprendeu mesmo fui eu! Vocês são professores de vida! 😉

 Sâmela Silva, direto de São Paulo, Brasil, mas morta de saudade de Maputo, Moçambique.

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