Archive for setembro \25\UTC 2012

Desafios e dicas da vida profissional de um estrangeiro em Moçambique

Faz 3 meses e 13 dias que voltei para o Brasil, mas como eu esperava, o bloguinho ainda rende frutos! 🙂 Até hoje recebo inúmeros pedidos de auxílio de pessoas que estão indo para Moçambique e que querem saber dicas, tirar dúvidas e na maioria das vezes, saber como era minha rotina lá. De mulheres que estão indo acompanhar seus maridos, então! De todos os questionamentos, os dois maiores temas são Safari, que já escrevi nestes 2 posts: Safari na África: você deveria fazer uma vez na vida!Camping no Kruger! Bom, bonito e barato!, e Vida Profissional, onde falo um bocado no meu outro blog, o Blog da Sâ, mas que não havia dedicado nenhum post aqui ainda, a não ser quando comentei sobre minha experiência como professora em uma Universidade moçambicana, mas foi algo mais light.

Então, vamos lá! Como vocês já sabem, lecionei por alguns meses num curso de Ciências da Comunicação, mas também trabalhei por 4 meses na parte administrativa de uma pequena agência de publicidade, e posso lhes dizer: a vida profissional é um dos maiores desafios em qualquer mudança, seja de município, estado ou país. Aliás, quando você muda de emprego na mesma cidade já é um desafio, novas rotinas, processos, costumes, chefes e por aí vai. Mas tenho que confessar que na mudança de país, o buraco parece ser mais embaixo.

Aí vai uma pequena lista de desafios que encontrei:

1) Cota de estrangeiros

Em Moçambique, até onde pude verificar, só é possível ter 10% das vagas dedicadas a estrangeiros. Como boa parte das empresas não são grandes, fica difícil contratar. Por exemplo, uma empresa de 10 funcionários, que já é grandinha, só pode ter 1 estrangeiro… já dá pra ver que cada vaga é bem disputada.

2) O ritmo de trabalho

Todo mundo que vai pra lá estranha. Ainda não posso dizer com certeza pois só morei em um país diferente do Brasil, mas brasileiro trabalha pra caramba! A gente já está acostumado com leis trabalhistas, carga extra de trabalho, prazos curtos, qualidade, vida acadêmica ativa, princípios de liderança e gestão de pessoas, etc. Isso faz da gente ótimos profissionais, sem exageros. Mas em Moçambique, senti na pele o quanto o momento histórico que eles ainda vivem, interfere no ritmo e qualidade dos serviços. Coisas básicas como atendimento ao cliente são grandes calcanhares de Áquiles. Tive a impressão de que eles ainda não tem aquele sentimento de que o cliente é quem paga o salário deles no final do mês. E para nós, que já temos esse princípio mais consolidado, fica difícil se adaptar. É como se voltássemos um pouco no tempo.

3) A língua

O Português falado em Moçambique é o de Portugal e temos que nos adaptar para tornar a comunicação, oral e escrita, mais fácil. Mas além disso, perdi muitas oportunidades por não ser fluente em Inglês, e em alguns momentos, em Francês também. São muitas multinacionais, são muitos estrangeiros vivendo ali, e fronteiras muito próximas com países de língua inglesa, aí já viu. E nesse quesito, dá uma invejinha boa dos moçambicanos! Eles parecem ter muito mais facilidade do que nós para aprender outro idioma e se quiser saber minha teoria sobre isso, clique aqui.

Diante deste cenário, tive minhas experiências profissionais mas não da forma consistente que eu precisava. Um lugar bacana, com registro, salário justo, etc, foi um sonho difícil de realizar em Moçambique.

É muito mais seguro ir com um emprego garantido mas não é fácil. Conheci inúmeras esposas, namoridas e afins que foram morar em Maputo para acompanhar seus cônjuges que receberam gordas e/ou interessantes propostas e foram expatriados. “Expatriado” é um termo que aprendi a usar lá, trata-se de funcionários que trabalham no Brasil mas são enviados para trabalhar em filiais ou projetos no exterior. Eles tem todo o suporte da empresa brasileira e, na maioria das vezes, bons benefícios que fazem a mudança valer a pena. Mas a esposa vai de “gaiata” na história e depende dela se adaptar ao cenário novo. Algumas grandes empresas até prometem auxiliar as esposas a se recolocarem no mercado, já que sabem que esposa descontente é sinônimo de marido com a cabeça quente no trabalho e isso pode significar uma passagem de volta do casal, o que é um prejuízo para a companhia. Mas em Moçambique, não vi isso ser tão eficaz.

O jeito é correr atrás! Dentre muitas coisas que podem ser feitas, uma das que considero mais importantes é obter a Equivalência do Diploma. Para você trabalhar em sua área ou continuar seus estudos, o Governo Moçambicano tem que emitir um documento que diga que sua graduação é reconhecida no país. Isso deve ser feito logo no início, pois este documento costuma demorar para ficar pronto, o meu saiu em 2 meses, mas já houve casos de mais de 7. Em Janeiro de 2012, o processo que fiz foi o seguinte:

  • Minha Certidão de Equivalência Acadêmica! É bonita, viu! Rs…

    1) Carta escrita a mão solicitando a equivalência (Modelo de Carta de Equivalência Escolar em Mocambique)

  • 2) DIRE (visto de residência permanente em Moçambique)  original + *Cópia autenticada (se ainda não tiver DIRE, o Passaporte + *Cópia autenticada resolvem)
  • 3) Histórico do Ensino Médio original + *Cópia autenticada
  • 4) Histórico da Faculdade + *Cópia autenticada
  • 5) Diploma original + *Cópia autenticada
  • 6) Ficha disponibilizada pelo setor de Equivalência da Universidade Pedagógica de Moçambique (você pode preencher na hora)

*cópias autenticadas em um cartório moçambicano

Reunindo todos estes documentos, é só ir até a Universidade Pedagógica que fica no final da Avenida do Trabalho em Maputo (clique aqui para ver o mapa), entregá-los, pegar o protocolo, cruzar os dedos e aguardar! 😉

Mas fugindo um pouco do lado desafiador e burocrático, conheci pessoas que foram sem emprego, ou com um emprego meia-boca e que conseguiram superar estas dificuldades. Uma boa opção é abrir a própria empresa, virar pessoa jurídica. Já que as empresas não podem contratar o estrangeiro, ele entra no quadro de funcionários de maneira camuflada como “prestador de serviços”, um emite nota pro outro e pronto. Além disso, como abrir empresa em Moçambique não é difícil, se aventurar no próprio negócio também pode ser um ótimo escape. E dependendo do negócio, nem é preciso abrir empresa mesmo, trabalhar de casa também é super válido!

Como exemplo, minhas amigas Lidi Mendes e Lívia Monteiro estão se jogando deliciosamente na carreira de doceiras! Em Moçambique não é comum achar docinhos tão gostosos quanto os nossos, várias vezes amigas moçambicanas me pediram para ensinar a fazer o bendito brigadeiro! Lá não costuma dar certo porque o leite condensado moçambicano tem uma textura muito diferente do nosso, logo, o segredo mesmo é correr atrás de uma lata de Leite Moça Nestlé! Rs… A Lidi se especializou em Cupcakes e abriu a Marula Cupcakes, já a Lívia, criou a Comadre Docinho e estão se dando super bem! 😀

Clique nos nomes e visite as páginas da “Marula Cupcakes” e “Comadre Docinho” no Facebook!

No final, o que conta mesmo é a vontade e a perseverança. Se você realmente quiser trabalhar em Moçambique, você consegue. Basta só não esmorecer ao encontrar as barreiras que citei acima e abusar de itens como paciência e criatividade. Ah, e deixar um pouco de lado a ambição de muito dinheiro a curto prazo! Isso só virá com o tempo e dedicação. Acho importante ressaltar também, que muitas das dificuldades que citei, acredito serem resquícios do pouco tempo de independência (desde 1975) e da colonização portuguesa que pra mim, foi uma das menos progressistas para os nativos. Muitas gerações vão ter que nascer e morrer, assim como aconteceu com o Brasil, para velhos costumes desaparecerem e oportunidades de aprendizado, especialização e crescimento, surgirem de forma abrangente, igualitária e consistente em Moçambique.

 Sâmela Silva, direto de São Paulo, Brasil, mas cheia de saudade de Maputo, Moçambique.

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Catalunya no és Espanya

Queridos leitores, devo confessar que quando lhes contei que vivia na Espanha, disse uma meia verdade. Para grande parte das pessoas que são daqui a Catalunha não é Espanha! Todo mundo certamente já ouviu falar das intenções separatistas do País Basco, que ganharam o mundo pelas ações terroristas do ETA, mas pouca gente sabe do forte movimento independentista catalão (que é bastante pacífico, ok ?).

Vocês se lembram de quando eu disse no meu primeiro post que a Espanha estava formada por diversos reinos? Pois é, a Catalunha era um desses reinos e nunca encarou muito bem o domínio espanhol. Em diferentes momentos da história a Catalunha se opôs às decisões dos reis espanhóis e pagou um preço muito caro por isso, passou por guerras e perdeu muitos de seus direitos e liberdades nacionais. Mas a coisa não parou por ai…a Catalunha sofreu muito com a Guerra Civil Espanhola e, durante todo o regime franquista, o catalanismo foi fortemente reprimido (entre outras coisas, falar catalão era delito).

O resultado de tudo isso é que boa parte dos catalães não se identifica em nada com a Espanha, não se consideram espanhóis e não querem pertencer à Espanha. Para essas pessoas, a Catalunha é uma nação com sua própria língua, cultura, instituições políticas e direito civil e deve ser reconhecida como um Estado europeu independente. Pode parecer algo muito teórico, mas o nacionalismo catalão está presente no cotidiano das pessoas que vivem aqui e é parte significante dessa experiência que é Barcelona.

Além de questões culturais, os catalães desejam ser independentes por questões políticas e financeiras. Entendem que o Estado Espanhol não reconhece como deveria a cultura e as instituições catalãs e não distribui de maneira justa tudo o que arrecada. De modo geral, os catalães estão cansados de ser uma das comunidades que mais contribui para a economia do país e não receber investimentos na mesma proporção. Muitos acreditam que existe um verdadeiro boicote da Espanha.

É por todas essas razões que no dia 11 de setembro (data em que perderam uma guerra contra Espanha), cerca de 2 milhões de catalães foram às ruas pedir a independência de seu país. Eu acompanhei de perto e isso e segui a manifestação por horas. Resultado: muita emoção e estas fotos aqui:

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Aqui deixo um vídeo com um resumo do último dia 11 de setembro (em catalão):

E o que eu penso de tudo isso? Acho que diferenças culturais e má distribuição de recursos, para quem vem de um país como o Brasil, não são razões para separar-se. Mas a coisa aqui é bastante diferente, o contexto histórico, econômico e cultural é outro. Sinto que essa colcha de retalhos que é a Espanha nunca foi bem costurada e o país nunca se unificou de verdade. Com exceção dos bascos e dos catalães, o resto do país se considera espanhol, mas antes de serem espanhóis, são andaluzes, galegos, valencianos, navarros, asturianos…No Brasil somos antes de tudo brasileiros.  A mim, particularmente, me entristece muito a maneira como o resto da Espanha encara o movimento independentista, com preconceito e muitas vezes ódio. Sem conhecer a Catalunha e os catalães, muitos espanhóis rejeitam absolutamente tudo o que vem daqui (a recíproca muitas vezes é verdadeira). Não entendem que os catalães não querem independência dos espanhóis, mas a independência da Espanha como Estado, pela maneira como se formou e pelo que se tornou. É por isso e também porque amo o lugar onde vivo, que mesmo sem entender totalmente suas razões, reconheço que me alegraria ver a Catalunha independente.

Se interessou pelo tema? Este vídeo explica um poquinho mais (sorry, está em english):

Vivian Aggio, direto de Barcelona, Espanha.

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