Archive for abril \24\UTC 2013

The Cure na Argentina

Eu faria quase qualquer coisa pra ter você de volta ao meu lado,

Mas vou continuar sorrindo, escondendo as lágrimas nos meus olhos,

Porque garotos não choram.

(Boys don’t cry)

The Cure em Buenos Aires

The Cure em Buenos Aires

MARÇO DE 1987 – Nessa época tão distante, não existia CD, para ouvir música a gente ainda dependia dos velhos discos de vinil (os bolachões) ou a velha fita K7. Internet nem sonhava em nascer, então tinha que escutar rádio e ler a revista Bizz para estar a par das novidades. E rezar para que os artistas que a gente amava tanto estivessem dispostos a viajar horas e horas pra vir tocar no fim do mundo (para os padrões deles, claro). Em geral, isso acontecia quando os artistas já estavam em franca decadência e precisavam de mercados novos pra comprar o leitinho das crianças 😀

The Cure Ferro 1987

The Cure em Buenos Aires 1987, um desastre total

Mas de vez em quando acontecia algum milagre, e vinha gente que estava entrando no auge da carreira, como aconteceu com o The Cure, que veio fazer uma turnê na América do Sul em 1987. A turnê passou pelo Brasil e aqui na Argentina eles vieram tocar em duas noites de março no estádio do clube de futebol Ferrocarril Oeste. Foram duas noites memoráveis, mas no pior sentido da palavra.

Ingressos falsificados, invasão no campo, alambrados e muros derrubados, batalha campal entre a polícia e o público. A escalada da violência tomou conta das duas noites e o saldo de tudo isso foram várias pessoas feridas, cães da polícia mortos a chutes e pontapés e até um vendedor de cachorro-quente que morreu por um ataque cardíaco. A banda, que não tinha outra opção, saiu pra tocar no meio da confusão, mas na segunda noite uma garrafa de Coca jogada da platéia acertou bem em cheio a cara do Robert Smith e o show foi encerrado pela metade. Em seus diários de viagem, o cantor escreveu que “o campo lá fora não deve nada a Beirute”. Depois disso, reza a lenda que Bob Smith jurou que nunca mais pisava na Argentina.

1987 Cure Buenos Aires

Flyer Buenos Aires 1987

ABRIL DE 2013 – 26 anos depois da batalha épica, The Cure anunciou uma nova turnê latino-americana e, surpresa, Argentina fazia parte do roteiro! A notícia colocou a galera em polvorosa, incluindo euzinha, que sou fanzoca da banda. Ainda mais depois que eu vi a lista das músicas que eles tocaram nos shows do Brasil, que aconteceram uma semana antes do daqui.

Dessa vez o clima foi mais do que tranquilo. O show foi no estádio do River Plate, o Monumental de Nuñez. Cheguei lá um pouco antes das oito da noite e fui buscar a entrada para o meu setor, que era Platéia Alta (arquibancada lateral). A entrada estava bem organizada e nenhuma fila. Mostrei meu ingresso e passei pela catraca numa boa, duro foi subir as escadarias pra chegar no lugar (eita, véia).

Robert Smith guitarra

Recadinho sobre a morte da Margareth Thatcher e apoio às causas feministas

Detalhe: chegando lá em cima tinha uns carinhas (que eu aposto que eram da torcida organizada do River, uma máfia – como qualquer outra torcida organizada) “auxiliando” a galera. Um deles se aproximou de mim e pediu pra ver meu ingresso pra saber qual era a porta que eu tinha que entrar. Mostrei e ele me indicou o caminho, mas antes me fez uma proposta indecente: por uma propina ele podia me colocar em um lugar melhor pra ver o show. Com o frio que fazia (muuuuuito), um lugar melhor pra mim significava ou no backstage (sonho meu!) ou num lugar fechado com uma poltrona confortável e um cobertor quentinho, mas como isso é impossível em um estádio, apenas respondi que no, muchas gracias 😀

Depois de me acomodar em um lugar legalzinho, só faltava esperar um tempinho antes que o show começasse. Fiquei vendo a galera lá do gramado chegando, a princípio tinha pouca gente, mas foi enchendo cada vez mais. Como o estádio fica quase ao lado do Aeroparque, também me distraía vendo os aviões que passavam bem pertinho dali a caminho de aterrissar no aeroporto.

ETNA3G

Eu no Monumental vendo o palco lá de longe

A ansiedade foi tomando conta, mas durante a espera fiquei irritada com duas coisas: a música que tocava nos auto-falantes era uma porcaria total, os produtores bem que podiam ter armado uma playlist com hits dos anos 80 que ia combinar perfeitamente com o clima da banda, mas colocaram cada música que doía nos ouvidos. Depois tive que aguentar a sempre obrigatória banda de abertura, não sei porque fazem isso nos shows. Dessa vez era uma chamada Utopians, que faziam um punk/grunge/sei-lá-o-que-mais que não tinha nada a ver com o som do The Cure. Um saco! (eita, véia 2) 😀

Se eu tivesse pensado nas palavras certas,

eu poderia ter ficado no seu coração.

Se eu tivesse pensado nas palavras certas

Eu não estaria rasgando todas as minhas fotos de você

(Pictures of you)

Robert Smith

Robert Smith, quero me casar com você. Me liga!!

Finalmente as luzes se apagaram e a multidão começou a gritar. Lá de longe eu vi a banda entrando  no palco. Os primeiros acordes e já começam tocando Plainsong, Pictures of you, Lullaby e Lovesong, todas do meu disco favorito, Disintegration, de 1989.  Meninos podem não chorar, mas eu chorei demais em Pictures of you, uma das músicas mais lindas do The Cure. Chorei e cantei ao mesmo tempo, é difícil mas dá pra fazer 😀

O show foi impecável, desde a iluminação e o som ao repertório, os músicos e o Robert Smith, que é a alma do grupo. As músicas, das mais góticas às mais pop, foram desfilando durante o show. No final, quando voltaram para o bis, uma fileira de hits clássicos que terminou com  Boys don’t cry, 10:15 Saturday night e Killing an arab, todas do primeiro disco deles, Three Imaginary Boys, que foi lançado em … 1979 !!!!! Dá pra acreditar que já passou todo esse tempo?

Três horas e meia depois e 40 músicas tocadas, eles já não voltariam mais ao palco. Antes de ir embora, Robert Smith agradeceu a platéia com seu jeito tímido, apenas com um Tchau, NOS VEREMOS OUTRA VEZ !!! Saí do estádio e voltei pra casa com um sorriso no rosto que não me abandonou e não se desfez mais a noite inteira. Sonhei com gatos góticos e homens de cabelo desgrenhado.

Já fazia um tempão que eu não ia em shows de estádio, porque meus ídolos são todos velhinhos e só fazem shows em casas pequenas (menos os Rolling Stones, que são velhinhos mas ainda fazem shows em estádio). Foi muuuuito bom e me deu uma nostalgia da época que eu não perdia um Hollywood Rock por nada neste mundo! E em maio vou ver os Pet Shop Boys, outro ícone dos anos 80, só que vai ser em lugar fechado, no Luna Park. Não se preocupem que depois eu conto pra vocês como foi, ok? 

Fernanda Galli, direto de Buenos Aires, Argentina.

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Chuva, fila e Andy Warhol!

warhol4Uma das coisas que mais gosto em Hong Kong é a possibilidade de fazer cada dia uma atividade cultural diferente. Mas isso só é possível porque a cidade oferece muitos eventos nacionais e internacionais: festivais pra cá, feiras pra lá, torneios pra acolá, o que torna a vida cultural bastante diversificada.

Eu, por exemplo, adoro esse tipo de programa, só que a maior parte da população também gosta… Isso significa que é preciso ter muita paciência e boa vontade pra enfrentar a maratona de filas pra essas atividades, sobretudo durante os fins de semana.

No domingo passado, achei que já estava na hora de dar uma chegadinha lá no Hong Kong Museum of Art – onde está sendo exibida a exposição 15 Minutes Eternal, do americano Andy Warhol. Uma excelente ideia pra um Domingo de Páscoa chuvoso, sem nada interessante pra fazer em casa.

Pessoal, tomei um susto, a  fila para comprar as entradas estava enorme. As pessoas, que não se intimidaram com a chuva, iam avançando na velocidade da lesma… E eu lá, firme e forte, esperando chegar a minha vez. Finalmente consegui entrar no museu, foi aí que percebi que lá dentro também havia fila para entrar nas salas da exposição. Precisei ficar esperando na porta até que as pessoas que estavam dentro fossem saindo, coisa normal por aqui! Acontece que eu ainda nao me acostumei com a quantidade de pessoas, comecei logo a reclamar e a me queixar, o que me fez levar um bom puxão de orelha do marido que, ao contrário de mim, é  bem paciente.

Eu não sei se todos vocês conhecem Andy Warhol, mas acredito que mesmo aquelas pessoas que nunca ouviram falar nada sobre esse artista, já devem ter visto imagens suas estampadas por aí. Como por exemplo, aquela famosa fotografia da Marilyn Monroe (trabalhada com cores bem espalhafatosas) e também a imagem da lata de sopa Campbell’s, lembraram? 

Pois é, essas também eram as únicas imagens que eu associava a ele: a lata e Marilyn!!

warhol

Marilyn Monroe

Black Bean 1968 by Andy Warhol 1928-1987

A famosa lata de sopa!

Andy Warhol, auto-retrato

Andy Warhol, auto-retrato

Warhol era muito criativo, iniciou sua carreira como ilustrador comercial, mas sua sensibilidade para a arte contemporânea, sua experiência e habilidade foram fundamentais para preparar o caminho pra um ambiente novo na arte americana. É impossível pensar em Pop Art sem pensar em Andy Warhol. A exposição 15 Minutes Eternal marca o aniversário de 25 anos de sua morte. Seu rico repertório de obras está agora aqui em Hong Kong à disposição de quem tiver tempo e interesse para conhecê-lo.

Mas, qual a razão de falar sobre a exposição de um artista que nem chinês era? Então, na verdade o post não é só pra falar sobre Warhol, mas para contar pra vocês o quanto Hong Kong é uma cidade interessante e cosmopolita. É também pra dizer que Hong Kong, culturalmente, é uma cidade rica. Que há programas culturais o tempo todo. Aqui, nós não ficamos limitados a conhecer apenas a arte chinesa, porque tem de tudo, para todos os gostos e para todas as idades. Só fica em casa entediado e sem fazer nada interessante quem realmente quer.

E, na saída, depois de ter ficado bastante impaciente e irritada por conta da quantidade de público, dei de cara com uma frase do próprio Andy Warhol estampada na parede do museu: Pop Art is for everyone!

É verdade, Warhol, desculpa aí o mau jeito!

 

Daisy Schäfer, direto de Hong Kong, China.

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