The Cure na Argentina

Eu faria quase qualquer coisa pra ter você de volta ao meu lado,

Mas vou continuar sorrindo, escondendo as lágrimas nos meus olhos,

Porque garotos não choram.

(Boys don’t cry)

The Cure em Buenos Aires

The Cure em Buenos Aires

MARÇO DE 1987 – Nessa época tão distante, não existia CD, para ouvir música a gente ainda dependia dos velhos discos de vinil (os bolachões) ou a velha fita K7. Internet nem sonhava em nascer, então tinha que escutar rádio e ler a revista Bizz para estar a par das novidades. E rezar para que os artistas que a gente amava tanto estivessem dispostos a viajar horas e horas pra vir tocar no fim do mundo (para os padrões deles, claro). Em geral, isso acontecia quando os artistas já estavam em franca decadência e precisavam de mercados novos pra comprar o leitinho das crianças 😀

The Cure Ferro 1987

The Cure em Buenos Aires 1987, um desastre total

Mas de vez em quando acontecia algum milagre, e vinha gente que estava entrando no auge da carreira, como aconteceu com o The Cure, que veio fazer uma turnê na América do Sul em 1987. A turnê passou pelo Brasil e aqui na Argentina eles vieram tocar em duas noites de março no estádio do clube de futebol Ferrocarril Oeste. Foram duas noites memoráveis, mas no pior sentido da palavra.

Ingressos falsificados, invasão no campo, alambrados e muros derrubados, batalha campal entre a polícia e o público. A escalada da violência tomou conta das duas noites e o saldo de tudo isso foram várias pessoas feridas, cães da polícia mortos a chutes e pontapés e até um vendedor de cachorro-quente que morreu por um ataque cardíaco. A banda, que não tinha outra opção, saiu pra tocar no meio da confusão, mas na segunda noite uma garrafa de Coca jogada da platéia acertou bem em cheio a cara do Robert Smith e o show foi encerrado pela metade. Em seus diários de viagem, o cantor escreveu que “o campo lá fora não deve nada a Beirute”. Depois disso, reza a lenda que Bob Smith jurou que nunca mais pisava na Argentina.

1987 Cure Buenos Aires

Flyer Buenos Aires 1987

ABRIL DE 2013 – 26 anos depois da batalha épica, The Cure anunciou uma nova turnê latino-americana e, surpresa, Argentina fazia parte do roteiro! A notícia colocou a galera em polvorosa, incluindo euzinha, que sou fanzoca da banda. Ainda mais depois que eu vi a lista das músicas que eles tocaram nos shows do Brasil, que aconteceram uma semana antes do daqui.

Dessa vez o clima foi mais do que tranquilo. O show foi no estádio do River Plate, o Monumental de Nuñez. Cheguei lá um pouco antes das oito da noite e fui buscar a entrada para o meu setor, que era Platéia Alta (arquibancada lateral). A entrada estava bem organizada e nenhuma fila. Mostrei meu ingresso e passei pela catraca numa boa, duro foi subir as escadarias pra chegar no lugar (eita, véia).

Robert Smith guitarra

Recadinho sobre a morte da Margareth Thatcher e apoio às causas feministas

Detalhe: chegando lá em cima tinha uns carinhas (que eu aposto que eram da torcida organizada do River, uma máfia – como qualquer outra torcida organizada) “auxiliando” a galera. Um deles se aproximou de mim e pediu pra ver meu ingresso pra saber qual era a porta que eu tinha que entrar. Mostrei e ele me indicou o caminho, mas antes me fez uma proposta indecente: por uma propina ele podia me colocar em um lugar melhor pra ver o show. Com o frio que fazia (muuuuuito), um lugar melhor pra mim significava ou no backstage (sonho meu!) ou num lugar fechado com uma poltrona confortável e um cobertor quentinho, mas como isso é impossível em um estádio, apenas respondi que no, muchas gracias 😀

Depois de me acomodar em um lugar legalzinho, só faltava esperar um tempinho antes que o show começasse. Fiquei vendo a galera lá do gramado chegando, a princípio tinha pouca gente, mas foi enchendo cada vez mais. Como o estádio fica quase ao lado do Aeroparque, também me distraía vendo os aviões que passavam bem pertinho dali a caminho de aterrissar no aeroporto.

ETNA3G

Eu no Monumental vendo o palco lá de longe

A ansiedade foi tomando conta, mas durante a espera fiquei irritada com duas coisas: a música que tocava nos auto-falantes era uma porcaria total, os produtores bem que podiam ter armado uma playlist com hits dos anos 80 que ia combinar perfeitamente com o clima da banda, mas colocaram cada música que doía nos ouvidos. Depois tive que aguentar a sempre obrigatória banda de abertura, não sei porque fazem isso nos shows. Dessa vez era uma chamada Utopians, que faziam um punk/grunge/sei-lá-o-que-mais que não tinha nada a ver com o som do The Cure. Um saco! (eita, véia 2) 😀

Se eu tivesse pensado nas palavras certas,

eu poderia ter ficado no seu coração.

Se eu tivesse pensado nas palavras certas

Eu não estaria rasgando todas as minhas fotos de você

(Pictures of you)

Robert Smith

Robert Smith, quero me casar com você. Me liga!!

Finalmente as luzes se apagaram e a multidão começou a gritar. Lá de longe eu vi a banda entrando  no palco. Os primeiros acordes e já começam tocando Plainsong, Pictures of you, Lullaby e Lovesong, todas do meu disco favorito, Disintegration, de 1989.  Meninos podem não chorar, mas eu chorei demais em Pictures of you, uma das músicas mais lindas do The Cure. Chorei e cantei ao mesmo tempo, é difícil mas dá pra fazer 😀

O show foi impecável, desde a iluminação e o som ao repertório, os músicos e o Robert Smith, que é a alma do grupo. As músicas, das mais góticas às mais pop, foram desfilando durante o show. No final, quando voltaram para o bis, uma fileira de hits clássicos que terminou com  Boys don’t cry, 10:15 Saturday night e Killing an arab, todas do primeiro disco deles, Three Imaginary Boys, que foi lançado em … 1979 !!!!! Dá pra acreditar que já passou todo esse tempo?

Três horas e meia depois e 40 músicas tocadas, eles já não voltariam mais ao palco. Antes de ir embora, Robert Smith agradeceu a platéia com seu jeito tímido, apenas com um Tchau, NOS VEREMOS OUTRA VEZ !!! Saí do estádio e voltei pra casa com um sorriso no rosto que não me abandonou e não se desfez mais a noite inteira. Sonhei com gatos góticos e homens de cabelo desgrenhado.

Já fazia um tempão que eu não ia em shows de estádio, porque meus ídolos são todos velhinhos e só fazem shows em casas pequenas (menos os Rolling Stones, que são velhinhos mas ainda fazem shows em estádio). Foi muuuuito bom e me deu uma nostalgia da época que eu não perdia um Hollywood Rock por nada neste mundo! E em maio vou ver os Pet Shop Boys, outro ícone dos anos 80, só que vai ser em lugar fechado, no Luna Park. Não se preocupem que depois eu conto pra vocês como foi, ok? 

Fernanda Galli, direto de Buenos Aires, Argentina.

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2 responses to this post.

  1. Fernanda, eu NUNCA fui a um show de estádio, sempre tive medo de que acontecesse alguma confusão (tipo a que rolou aí em 1987) e eu terminasse pisoteada… rsrs.
    Mas posso imaginar a emoção que foi ficar cara a cara com uma banda tão legal e que só toca música boa… Dá pra notar que vc desfrutou mesmo!!
    Bjo

    PS:. Os Pet Shop Boys eu curto pra caramba, vou ficar esperando o post.

    Responder

    • Oi Daisy, tudo bem? Nossa, eu adorava ir a shows de estádio, ia no Hollywood Rock direto. O único que tive problema realmente foi justo no primeiro que fui, Legião Urbana no Palmeiras em 89, quase fiquei de fora porque falsificaram muitos ingressos.
      Sempre tem risco, isso é verdade, mas em casas de show menores também, às vezes até mais. Mas eu adorava uma muvuca, fui até no show dos Rolling Stones na praia de Copacabana, uma loucura, kkkk!!! Agora eu tenho que amar muuuuuito o artista pra enfrentar essa maratona em estádio.
      O do PSB, como vai ser no Luna Park, é bem mais tranquilo. Depois faço o post para contar, porque tb é outro grupo que eu amo demais, como o The Cure.
      Beijocas!!!!

      Responder

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