Archive for junho \11\UTC 2013

“Mas e o gato?” – Operação Resgate Leona em andamento

Desde que voltei ao Brasil essa é a pergunta que mais ouço: “Mas e o gato?”. Rs… Para quem não se lembra, contei no Post “Leona, a gata paulistana que embarcou pra Moçambique!” como foi a saga de viajar com um bichinho de estimação. Muitos amigos me ajudaram a leva-la. Era caro e pra conseguir os cerca de R$ 3.0000,00 o jeito foi transformar a ida da bichana em uma causa nobre. Aí surgiu uma rifa, aí surgiram amigos e simpatizantes e pronto, em Abril de 2011 estava Leona desembarcando em Maputo.

Ela se adaptou rápido. Se tem comida e areia, gato se sente em casa. E foi assim. Em uma semana ela já era dona da casa e com lugares e hábitos preferidos, como dormir no guarda-roupa, “vigiar” os pássaros que paravam na grade das janelas e morder as pernas de Dona Tereza, moçambicana fofa que trabalhava em casa e dava umas vassouradinhas pra Leona se mandar! Rs…

Viu, essa é ela, dona da casa já no seu 1º dia em Maputo!

Viu, essa é ela, dona da casa já no seu 1º dia em Maputo!

Eu não tive muito contato com famílias moçambicanas pois fiquei mais próxima da comunidade brasileira (o que acho que foi um grande vacilo, devia ter dedicado meu tempo meio-a-meio, saí sem grandes vínculos com os moçambicanos), mas voltando ao tema, eu não via muitos animais domésticos quando andava pelas ruas e observava os quintais. Quando colocava Leona no jardim da casa muitos moçambicanos demostravam medo e até a achavam gorda demais.

Talvez por não ver esse apego ou hábito com animais, um item que achei difícil foi encontrar diversidade de rações, areia e brinquedos. Tinha um bendito biscoito que eu usava para ela me obedecer que só tinha aqui no Brasil, vira-e-mexe eu pedia pra algum amigo levar! E outras coisinhas tinha que sair “pescando” de mercado em mercado. Encontramos uma boa veterinária e coisas mais elaboradas como caixa de transporte e brinquedos, só na África do Sul mesmo. No final, creio que o saldo de adaptação foi de 100%.

Na hora de ir embora é que ferrou. Como vocês já sabem, minha volta não foi programada e transportar um animal de um país para outro é extremamente burocrático e caro. Tive que deixa-la em um primeiro momento para ser o menos traumático e desgastante possível pra ela e pra mim.

Leona e Sâm tirando uma soneca em Maputo, MoçambiqueDepois de diversos contratempos, dentre eles minha mãe, que me acolheu em sua casa e eu só tenho a agradecer, não curtir muito animais e claro, respeitei, tive que convencer a família que era hora de trazê-la, já que fazia praticamente 1 ano que eu estava de volta e não dava mais para adiar. Aí veio o 2º desafio: grana. Estou neste estágio. Juntando grana pra ela voltar. Não vejo a hora de vê-la e abraça-la, procuro não falar e olhar fotos porque as lágrimas de saudade são inevitáveis. Sei que ela está bem, mas… “mãe é mãe” e quero minha filhota de volta! Torçam por nós!

 Sâmela Silva, direto de São Paulo, Brasil, mas cheia de saudade das aventuras em Maputo, Moçambique.

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“Rádio Moçambique” – Como encontrar a frequência certa depois dessa incrível experiência?

(vou começar esse texto com um comparativo que me fez lembrar que estou ficando velha mesmo, mas foi o melhor exemplo que encontrei, rs…)

Sabe quando girávamos um botão do rádio para sintonizar a estação que queríamos e por mais perto que estivéssemos da frequência correta, nunca conseguíamos parar certinho e a estação até pegava mas com ruídos e tal? Então, é assim que me sinto depois de ter vivido fora. Não consigo sintonizar na frequência antiga mesmo que o cenário seja mega parecido.

Voltei para São Paulo, mais precisamente para a Zona Leste da cidade, região onde nasci e cresci e conheço de trás pra frente. Trabalho na mesma área de antes da viagem, Tecnologia da Informação. Amigos, família, tudo está no seu devido lugar. Mas… Eu não me encaixo.

É uma sensação esquisita e solitária.

Clichê, mas é isso, você vai de um jeito e volta de outro. Acho muito difícil alguém voltar de algo assim exatamente como foi. Não rola. São muitas experiências, muitos desafios, muita novidade e cabe a nós fazer bom uso de tudo isso. Voltar diferente é uma coisa, mas voltar melhor, vai depender do indivíduo.

Como ser humano, acredito que voltei muito melhor porque voltei carregada de desejo de viver o que é essencial. Fiz algumas trocas, tenho valorizado mais as questões socioambientais, por exemplo. Olho de forma diferente para minha conta bancária e gasto com mais cautela. Não me tornei uma naturalista radical, rebelde sem causa ou coisa assim, continuo gostando de ir ao cinema, de comer fora, tomar um vinho, etc, mas agora tento colocar meu coração em tudo o que faço e repenso nas quantidades, na necessidade, etc. Acho que é a tal da consciência.

Moçambique é um país pobre, e também não há como voltar sem repensar nos excessos. Quando lembro da escola pública onde fiz trabalho voluntário, das ruas de Maputo, sinto uma dor muito grande em saber que ainda há pessoas sem a instrução, alimentação, transporte, saúde, adequados. E lembro também que não é preciso ir muito longe. Sou da periferia, a gente tem muito canto assim no Brasil. Ainda há muito por fazer.

Alunos de uma escola pública de Maputo, Moçambique

Alunos de uma escola pública de Maputo, Moçambique

Por outro lado, na África há países com regiões mais desenvolvidas que as nossas, como a África do Sul, por exemplo. Estive em cidades que deixaram São Paulo no chinelo no quesito limpeza, organização, estrutura, etc. E isso faz a gente ver com mais clareza ainda, o quanto somos roubados e humilhados diariamente pelo nosso governo e empresas privadas e o quanto somos passivos.

Quem se mete numa aventura como essa, de viver fora da pátria por um tempo, deve saber que há efeitos colaterais sim. Tudo muda. Você poderá estranhar sua língua materna, seu bairro de nascença, o comportamento dos seus pais e familiares, seus amigos. O paladar, o gosto musical, os assuntos de interesse e muito mais podem se transformar e você terá um belo e único momento de redescoberta e piração. Mas tenho fé que o saldo seja bom no final. Já está sendo. 😉

Não dá pra viver como vivi em Maputo, e não dá pra voltar a ser a Sâmela de antes da África. Às vezes sinto que flutuo em meio à rotina maluca desta grande metrópole que é São Paulo. Ajo por osmose, para me sentir parte do grupo e não ser inconveniente ou chamar atenção demais. Minhas opiniões passaram a divergir muito das de muitos amigos e as vezes sinto o preconceito e desdém no ar. Não que o que eu pense hoje seja o certo e o resto do planeta esteja pensando errado, mas o pensamento mudou pra algumas coisas, aí, quem conheceu a Sâm de antes acaba estranhando a Sâm de agora.

Giro o botão do rádio diariamente pra ver no que vai dar. Mesmo após 1 ano, não deu em nada muito consistente. Ainda não encontrei a frequência certa, mas prefiro essa dúvida e incerteza que podem me mover até o novo do que a inércia em que eu andava. Meio a Alice depois de conhecer o País das Maravilhas.

Maputo e eu...

Maputo e eu…

 Sâmela Silva, direto de São Paulo, Brasil, mas cheia de saudade das aventuras em Maputo, Moçambique.

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